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Entrevistas com autoridades e personalidades ligadas à área de defesa da mulher contra a violência doméstica
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Ruy Celso Florence - Desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul
18/04/11 
Por: Midiamax

 

Ruy Celso Florence é o mais novo desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul. Eleito por unanimidade para ocupar a vaga de Rêmolo Leteriello, ele já ocupou cargos que trouxeram bastante conhecimento tanto no meio acadêmico quanto no judiciário.

Advogado criminalista por seis anos, titular da Vara de Família, presidente da Associação dos Magistrados de Mato Grosso do Sul, Ruy Celso concedeu entrevista ao Midiamax e falou sobre os conflitos sociais que desestruturam a instituição família, o meio universitário e os respingos que as denúncias de corrupção no Estado chegaram até o Judiciário. Confira.

Midiamax – Com vários anos como titular da Vara de Família, o senhor deve ter acumulado uma experiência impressionante no que diz respeito aos conflitos e soluções, não é?

Ruy Celso – Fiquei 12 anos na Vara de Família. Nunca ninguém ficou tanto tempo lá. É uma vara desgastante, embora seja gratificante porque podemos ajudar as pessoas. Alí se vê de tudo, principalmente as disputas internas entre pais e filhos hoje em dia. Não se tem mais aquele respeito entre pais e filhos, onde os mais velhos e os mais jovem têm disputa interna. Hoje se vê mães disputando com filhas: desde roupas, sapatos a namorado.

Midiamax – Mas são vários fatores que levam a isto, não é?

Ruy Celso - São novos tempos. As situações antigas permanecem. Os casos antigos de destruição da família como jogo, mulher e bebidas permanecem. E a mulher, por sua vez, com esta ansiedade de ser independente e descontente com a vida também gera desfazimento da família. Atualmente esta questão da mulher ir atrás da beleza física, desesperadamente também contribui. Antigamente a mulher se mantinha jovem até os 30 anos. Hoje ela quer estar jovem aos 60. Não que isto seja totalmente ruim, mas esta procura por remédios, anfetaminas, malhação, preocupação com o físico e o esquecimento com a família, a mulher acaba abandonando um pouco este sentido de cuidadora de família.

Midiamax- Hoje tem mais caso de violência ou as mulheres estão denunciando mais?

Ruy Celso - A impressão que tenho que a violência é a mesma. Estão denunciando mais. O que pode acontecer também, mas não é uma certeza, é que antigamente a violência física era menor porque a mulher não reagia. Era mais uma agressão moral. Hoje não. As mulheres respondem praticamente na mesma moeda e por estarem reagindo os homens são mais agressivos, talvez, para tentar liquidar uma reação. Hoje, elas não querem ser mais submissas.

Midiamax – Está aumentando muito os casos da violência da mulher contra o homem?

Ruy Celso - Sim. Hoje, esta questão das mulheres estarem tomando as iniciativas acaba refletindo em todas as situações. Por que ela não pode tomar uma atitude também? A agressividade faz parte da natureza humana, temos que entender isto também. Hoje como a mulher tem maior liberdade ela extravasa, só não sei se ela agüenta uma resposta.

Midiamax - Em relação aos filhos. Parece que estão ficando mais rebeldes? É por conta das leis que os protegem?

Ruy Celso – Eu não acredito que seja por conta dos estatutos, leis. Esta meninada não tem muito conhecimento disto. Na verdade se criou uma cultura, talvez importada, em que os pais não podem impor limites, e isto tira autoridade. Qualquer psicólogo vai dizer que filho que faz o que quer vai trazer problema. O fato de ficar na Vara de Família vi histórias horríveis. Posso dizer de um mais grave: um casal se separou e ficaram na disputa pela filha. Um dia os dois levaram a moça, já com 18 anos, pra conversar comigo. Aquela moça estava usando drogas, se relacionando com homens e mulheres. Tinha umas dez relações por dia. Chegaram ao ponto de isolá-la no apartamento da mãe. Então veja bem: ficaram mais de oito anos com disputas na justiça e esqueceram-se do mais importante que era o psicológico da filha. Acordaram quase tarde.

Midiamax – Esta falta de limite não contribui para o surgimento de atritos familiares?

Ruy Celso – Sim, há pouco tempo se tinha mais limites sobre os filhos. Eles tinham hora para chegar. Não tinha negociação. A família tem que ter as figuras que mandam e obedecem. Não pode se perder isto. Não pode misturar os papéis, principalmente que os filhos não têm noção e quando forem pais não vão saber lidar com seus filhos.

Midiamax – Hoje tudo é muito sexualizado. Um exemplo são as bonecas que não tem mais acessórios infantis, mas maquiagens, roupinhas para balada...

Ruy Celso– Hoje a parte da sexualidade tanto do homem quanto da mulher está muito avançada desde cedo. Esquecem da moral, social. Hoje querem despertar as coisas para o lado sensual. A criança, realmente, já cresce sem saber de certas brincadeiras sadias. Naturalmente já crescem em contato com coisas que remetem à sexualidade.

Midiamax – Outro fator externo que traz problemas é a droga.

Ruy Celso– Na verdade são muitos os fatores internos: droga, internet livre, entre outros. O excesso de consumismo também afasta os pais dos filhos. As pessoas estão trabalhando cada vez mais para consumir mais e a família fica em segundo plano. Pergunto: pra que trabalhar tanto? A resposta é sempre para comprar algo.

Midiamax – Mas também tem o lado bem no meio disto tudo, não é?

Ruy Celso – Sim. Temos que dizer do lado bom. Muitas famílias “acordam” sozinhas e começam este resgate. Pra se ter uma ideia hoje elas viajam mais com os filhos, estão acontecendo mais casamentos. Voltaram os bailes, grandes formaturas, as pessoas estão voltando a usar roupas sociais. Mais filhos com o nome do pai no registro, até porque a Lei agora está mais exigente quanto a isto. Chegamos a uma época que as pessoas não queriam mais nada. Tinha gente que pra achar um amigo tinha que andar por dez bares. De uns cinco anos para cá tudo vem melhorando. Até o surgimento da AIDS favoreceu de certa forma porque as pessoas diminuíram o número de parceiros e passaram a se proteger. Só a questão da droga que está aumentando para atrapalhar tudo.

Midiamax – O juiz foi juiz eleitoral. É um setor complicado?

Ruy Celso – A gente não se envolve com a política, só a questão da aplicabilidade da Lei mesmo. Lá é tudo muito rápido, muito bom, bons assessores. É a Justiça mais organizada do País.

Midiamax – Mas não é porque as pessoas deixaram de pedir coisas para pedir emprego?

Ruy Celso – Realmente o período eleitoral é um cabide para empregos. As pessoas não querem mais dentadura, querem trabalhar. Mas quando o trabalho é ser cabo eleitoral, a meu ver, é a mesma coisa que receber uma botina. Fazem aquele contratinho em trabalho e o que antes era em espécie hoje é em dinheiro. Mas isto também é da nossa cultura brasileira herdada dos portugueses. Se for cultural, também não podemos condenar tudo. O que é cultural não podemos condenar porque daqui a pouco vamos descobrir que os errados somos nós. Até matar é cultural relembrando a história de Abel E Caim. Eram s[ó os dois e um matou o outro: 50% da população morreu.

Midiamax – O senhor é professor universitário. Neste meio percebe que os acadêmicos começam animados e depois vão “murchando”?

Ruy Celso – Infelizmente, isto acontece. Passam no vestibular, fazem festa, bebem, comemoram...mas depois vão murchando. Os colegas de sala de aula vão um puxando o outro. Acho que o brasileiro é um pouco melancólico. Vejo um clima na universidade de derrotismo. Parece um monte de caranguejo dentro de uma lata: quando um vai sair os outros puxam, infelizmente. Em direito se não estudar muito não serve pra nada. A carreira é muito bonita.

Midiamax – Há uma história entre os acadêmicos de que ao procurar um estágio tem que ser com um advogado famoso. Isto é uma garantia de brilhantismo.

Ruy Celso – Não. Imagina! Eles falam isto mesmo. Mas a pessoa estudando muito vai ter sucesso. O problema é que as pessoas não estão estudando como deveriam e acham que se fizerem estágio com algum advogado famoso é certeza de sucesso. Falando de outra profissão: eu já trabalhei com sindicato de jornalistas em São Paulo e observei que aqueles que eram bons não paravam no emprego porque sempre tinha alguém interessado e oferecia mais.

Midiamax – A falta de vivência do acadêmico e desatualização dos professores também não contribui para formação de más profissionais?

Ruy Celso - Quando a pessoa entre na faculdade é um mundo e quando saem é outro. Sei de professor que está ensinando na faculdade coisa de 20 anos atrás e por isso o acadêmico tem que ter noção de mundo, não só dos bancos escolares, principalmente os mais jovens que já saem do segundo grau e vão direto para a faculdade. O acadêmico também tem que pensar como vai ser o mundo daqui cinco anos. O direito atual não será o mesmo. É isto que faço com meus alunos: como será lá na frente.

Midiamax – Esta questão do Judiciário de MS figurar na lista do CNJ?

Ruy Celso - O que aconteceu foi situação que atingiu o judiciário. O que temos que reclamar é que o CNJ nos cobra tanta agilidade e a ministra esteve aqui, colheu denúncias, e até agora não veio uma resposta. O CNJ veio, trouxe gente da Receita Federal, fizeram um levantamento total.

Dentro do CNJ não há corporativismo. Todo mundo está vendo o que está acontecendo com até demissão de ministro. Agora, se terminar tudo e não apontar nada contra a justiça do Estado é porque não tem nada mesmo. Não temos o menor poder de negociação lá. Somos um estado sem expressão, até porque não temos um ministro no CNJ, no STF. Dentro do judiciário somos muito fracos. Eu digo, pessoalmente, que a Justiça do Estado, é muito boa. Peço para que as pessoas confiem.
 

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